Autor: Alex Periscinoto Quantas vezes a gente tira uma frase do lugar, contesta um dito po¬pular, usa o bom humor e ganha uma incrível voltagem criativa. São Francisco que nos desculpe, mas os criadores da agência Abbott Mead foram geniais no anúncio, quando, para justificar uma ação de marketing mais agressiva, usam o soco que o lutador de boxe está recebendo no meio do nariz para dizer: “Nós sempre pensamos que é melhor dar do que receber”.
O Barão de ltararé, depois de levar mais uma surra inesquecível da polícia, pregou na porta de seu escritório a placa que dizia: “Entre sem bater”. Este tipo de exercício criativo é natural no ser humano, e todo mundo tem um amigo que é capaz de ter uma atrás da outra essas “tiradas” de inteligência, em que o segredo está em aplicar uma frase conhecida num outro contexto. Até para contestar a frase origi¬nal, como é o caso do anúncio mencionado.
Do lado da cabeceira de minha cama, preguei a frase superconhecida de todo mundo, dando a ela uma nova leitura: “Não se aceitam reclamações”. E um exercício incentivado por todos que estudam criatividade, inclusive em nível universitário, como é o caso da faculdade de Buffalo. Mas todo mundo faz isso. Tem uma outra placa que indica número de casa, muito inteligente. Ela é toda de ágata e tem o número “24” bem grande. Na parte inferior, abaixo do número, pode-se ler: “Atende-se nos fundos”.
Outro dia, no meio dessa crise de construção imobiliária, vi na porta de motel um caminhão de uma construtora que estava sendo usado na reforma com os seguintes dizeres no pára-choque: “Só o amor constrói”. Desde moleque, eu e meu amigo brincávamos com essas coisas. Para melhor organizar o mundo, a gente achava que o Gasô¬metro deveria dar o exemplo, já que ele ficava na Rua do Gasômetro; do mesmo modo, todo lápis deveria ser produzido em Ponta Grossa, os asilos deveriam ficar na cidade de Amparo, os compassos de¬veriam ser produzidos em Volta Redonda e os bancos pequenos deveriam ter sede em Ourinhos. Você tirou do lugar, usou o humor e ganhou força e simpatia.
Juntar imagem com falas e ditos conhecidos para mudar o contexto e ganhar uma nova leitura acontece por acaso, como outro dia na Av. Europa. Um travesti se protegia da chuva fina dentro do posto de gasolina. O que ele não percebeu é que tinha ficado debaixo da placa “Aqui, troca de óleo rápido. Lavagem R$ 10,00”, dando um significado original para a placa.
Para terminar, nesta semana de perigos e folias carnavalescas, eu lembro aquele anúncio imortal que a DDB criou para a Mobil. Ilustrado com uma sala de cirurgia completa, com todos aqueles instrumentos brilhantes, com todos aqueles cirurgiões-assistentes, anestesistas e enfermeiras, o anúncio pergunta: “Onde é que você vai passar o seu fim de semana?”. Por isso dirija com cuidado, com cinto de segu¬rança e muita atenção. E, se você entrar num engarrafamento, vá brincando de trocar as frases de lugar para se distrair, que você chegará sem problemas ao seu destino.
(Texto publicado na coluna “Criação & Consumo” mantida pelo autor no jornal Folha de S.Paulo.) – Reproduzido no livro Criatividade & Redação, de Rubens Marchioni, Edições Loyola
29/11/2006 | Categoria
Redação Comentários (1)
Envie um comentário!

100% vc vc vc vc vc vc vc vc vc